25 Junho 2011

Zé e Lucinda.


O pote estava quebrado. Aquele de barro que guardara todos esses anos; mas não tinha problema, não. Iria usar qualquer outro, afinal prometera para si mesma que hoje seria o dia. Casara ainda mocinha, e a avó, meio índia, ensinara a ela o prato que fazia hoje para Zé. Um tipo de mandioca, mais umas folhas - era surpresa. Pois bem, o pote da avó se rachara, os anos se juntaram em suas costas, e o Zé, primeiro e único amor, já há muito tempo deixara de ser aquele moço galante que foi buscá-la da casa dos pais. Homem é que nem pote de barro, vai ficando seco com o tempo, e Lucinda quase esquecera também da mocinha que um dia já foi.

Preparava a receita. Suas mãos tremiam um tanto, mas não titubeou e seguiu adiante: pouco a pouco ia se lembrando de cada passo - não sabia se ainda sabia, depois de tantos anos, mas ficou surpresa de como a coisa veio, cada detalhe gravado em algum lugar empoeirado de sua memória. Assou finalmente o bolo, e ficou esperando Zé, com a mesa posta e um bule de café no fogão.

Como já de hábito, ele chegou para o café da tarde, depois de passar o dia com os amigos do bar. Entrou sem dizer nada, e foi até o quarto se trocar. Lucinda sabia bem das estórias que diziam por aí, mas procurava não pensar quando ele saía toda noite, todo arrumado e sabe-se lá para onde. Não que ele fosse uma pessoa ruim, mas é verdade que uma vez chegou a bater nela. Por isso, desde então achou melhor aquietar, e nunca mais perguntou nada do que ele fazia ou deixava de fazer na rua.

Ele então volta do quarto de roupa alinhada, e senta-se na mesa. Ao ver o bolo na frente, olha mal humorado para Lucinda, que trocara nesse dia o pão com manteiga sem consultá-lo. Ela então o encara de volta, e diz que aquele dia era especial, por isso fizera o bolo. Resmungando, Zé então desvia o olhar, e começa a comer o pedaço de bolo, um pouco envergonhado porque não se lembrava de que fosse qualquer data especial. Não que ligasse, de verdade, mas não queria saber de estória. Ficaram assim, em silêncio, ele comendo o bolo e ela olhando, fixamente.

Dali a um pouco Zé começa a resmungar, a barriga lhe dava umas pontadas esquisitas. Só podia ser a porcaria do bolo, reclamava, xingando também Lucinda, por ter inventado moda. Ameçou tacar o prato no chão, mas parou no meio do gesto, a mão logo procurando o estômago, que agora doía pra valer. Começou a ficar pálido, quis falar alguma coisa, mas falar fazia piorar a dor, então ficou só olhando Lucinda, com uma expressão abobada, o suor saindo frio pela testa.

"Zé, pus uma mala com umas camisas suas ali, tá vendo? Pega e corre pro hospital, que se lavarem teu estômago você ainda vive."

Ele ficou ainda uns instantes olhando perplexo para Lucinda, a mão trêmula na barriga que doía sem dar descanso. Levantou-se de supetão, correu pegar a mala, e saiu sem dizer palavra, direto para o hospital.






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